Entrevista com Enderson Rafael

domingo, 5 de setembro de 2010


Leitura do Momento: Uma breve biografia sua.
Enderson Rafael: Eu nasci em Florianópolis, em 1980, onde morei até os 13 anos de idade. Na adolescência, fui para Teresópolis e depois, aos 19 anos, para o Rio de Janeiro, onde cursei Comunicação Social na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Já formado, retornei para Florianópolis, onde trabalhei por um ano e meio como redator publicitário. Em 2005, eu me mudei para São Paulo e comecei a trabalhar como comissário de voo.

Além do livro Todas as estrelas do céu [para ler a resenha, clique aqui], eu escrevi também o roteiro Mil Mares, que está disponível para download na Internet, e o ensaio Propaganda e Marketing para vestibulandos, calouros, curiosos e simpatizantes, que foi publicado, em 2006, pela Editora Novas Ideias. Atualmente, trabalho no meu próximo romance, intitulado Três Céus, para lançá-lo em 2011 se tudo der certo.

Quais foram suas fontes de inspiração para construção das personagens do livro “Todas as estrelas do céu”? Qual sua motivação ao escolher o amor entre irmãos como tema central do enredo?
Eu mesmo, minha maneira de ver o mundo, as coisas que importavam para mim à época do romance [final dos anos 90] e muitas pessoas que conheci. Como sou filho adotivo, eu me senti à vontade para abordar o tema neste enredo que, para mim, deveria ser diferente da maioria das histórias já publicadas. Eu queria uma obra pertinente, que trouxesse uma trama inédita, e o amor entre irmãos me pareceu perfeito. Penso até que, de todos os textos que eu já escrevi, foi o melhor “gancho”, embora hoje, eu tenha um estilo mais refinado e experiente de escrita.

Teresópolis e Florianópolis são as cidades-cenárias onde o enredo se desenvolve. Por que a escolha destes lugares?
Aos 19 anos, eu conhecia poucos lugares e enfrentava um processo de autoconhecimento como escritor, desenvolvendo minhas habilidades literárias. Então, eu não podia fugir daquela realidade que me era peculiar naquele tempo [final dos anos 90]. Como eu tive o privilégio de morar nestas duas cidades lindíssimas, que são destinos turísticos consolidados, elas tornaram-se cenários naturais para a história de Leandro e Caroline. Hoje, após três mil horas de voo, eu conheço mais de 60 lugares, os quais são cenários possíveis para os meus próximos romances.

O momento de maior tensão em “Todas as estrelas do céu” é o destino surpreendente do casal Leandro e Caroline. Estava nos planos construir um final tão inimaginável? Ou os personagens ditaram ao autor o próprio destino?
Os personagens, de fato, costumam se intrometer na história, rumando por caminhos inesperados. No entanto, os protagonistas ficam mais presos ao enredo, enquanto os coadjuvantes têm mais liberdade. Por exemplo: Gabriela apareceu mais do que eu planejava quando comecei a escrever o livro; Giovanna e Bárbara me deram um delicioso trabalho com as suas invencionices. Porém, o final já estava decidido desde o início e eu almejava que fosse surpreendente. Leandro e Caroline já caminhavam para aquele desfecho desde a primeira página, se você observar com atenção as ações de cada um e as do pai deles. O ritmo do livro, um tanto cinematográfico, em que todo capítulo é essencial, constroi a base para a resolução surpreendente, mas bastante plausível, da trama.

Embora muitos autores neguem, toda obra de ficção contém elementos da vida real. Quais experiências pessoais ou profissionais você retratou no livro “Todas as estrelas do céu”?
Eu não nego! Mas, “Todas as estrelas do céu” não é uma autobiografia. A minha vida serviu como base para iniciar o enredo, mas não para desenvolvê-lo. Eu tinha a mesma idade de Leandro [19 anos] e passava pelas mesmas angústias com relação ao futuro profissional. Psicologicamente, eu era muito parecido com a Caroline. Além disso, eu morei nas cidades que serviram como cenário [Teresópolis e Florianópolis]. Então, eu fiz questão de que fosse assim: elementos da vida real incorporados na ficção.

O livro “Todas as estrelas do céu” foi escrito há dez anos. Conte-nos como foi o processo de produção da obra.
Escrevi este livro ao longo de cinco meses, diariamente, entre julho e dezembro de 1999 - que é o período retratado no romance. Registrei-o em janeiro de 2000 e tentei publicá-lo desde então. Após ser ignorado por dezenas de editoras, em 2009, comecei a divulgar o livro de modo independente, distribuindo mais de 300 originais gratuitamente entre blogueiros críticos literários. Quando meu trabalho já era reconhecido nas redes sociais, algumas editoras se interessaram por ele, dentre as quais a Novas Ideias. Pelo fato de ter publicado meu livro anterior com esta Editora, eu a escolhi - até porque era também a melhor proposta contratual. Em abril deste ano, foi iniciada a pré-venda e em maio, o livro já estava impresso. A partir daí, foram feitos até o momento quatro lançamentos em livrarias do Rio de Janeiro, de Joinville, de Florianópolis e de São Paulo. Atualmente, estou em fase de negociação com os colégios para que eu possa ir ao encontro do público-alvo do livro - que são os adolescentes. Além disso, trabalhamos no Projeto Novas Letras para reunir jovens escritores na Livraria Saraiva.

Em sua opinião, qual é o maior desafio para os autores nacionais (e anônimos) publicarem seus livros?

Enfrentar a resistência das editoras para publicar, divulgar e distribuir seus livros, por ser um investimento arriscado. Nenhuma delas quer livro encalhado em estoque. Por isso, muitas editoras cobram do autor um preço exorbitante para que elas não tenham prejuízo. Além disso, boa parte dos leitores prefere sucessos internacionais e isto é um fator determinante para restringir o mercado editorial brasileiro. Há qualidade na produção literária nacional, muitas vezes até superior à internacional, mas, é preciso que os autores obtenham o apoio das editoras, das livrarias e, principalmente, dos leitores. Deste modo, haverá possibilidade de publicar novos títulos dos autores já conhecidos e, também, de autores anônimos - que almejam sua primeira publicação. Será um ciclo virtuoso: na medida em que as editoras e as livrarias perceberem que os livros nacionais dão lucro, elas investirão mais neles.

O que você sugere aos aspirantes a escritores para que estes consigam publicar seus trabalhos e vendê-los?

Eu os aconselho a apresentar trabalhos de qualidade e com caráter profissional às editoras tradicionais. O livro deve ser visto como entretenimento e negócio porque é assim que as editoras o tratam. Então, os novos autores têm que escrever para os outros, não para eles mesmos. Os leitores pagam pelo produto que as editoras oferecem e, por isso, são exigentes. Na cadeia produtiva do livro, muitas pessoas, além do autor, estão envolvidas e precisam ser remuneradas. Portanto, a publicação de livros é um investimento de alto risco para as editoras que, obviamente, não querem perder dinheiro. Depois de publicar um livro, é preciso que o autor participe ativamente de feiras, encontros, bate-papo etc. É importante também contatar outros autores para conhecer seus trabalhos. É preciso paixão e convicção em trabalhar em algo que você acredita e pelo qual sente um carinho enorme. Livros são filhos. Se você não confiar neles, como obras literárias e como objetos de desejo alheio, ninguém mais confiará.

Dos autores famosos, você se apoia em quem?

José Saramago, Chico Buarque, Carl Sagan e Amyr Klink. Mas, tudo o que lemos nos influencia muito e, atualmente, estou tendo o imenso prazer em conhecer as obras das minhas colegas Paula Pimenta, Fernanda França, Leila Rego, Kamila Denlescki, Tammy Luciano, dentre outros. Somos jovens escritores, ainda estamos aprendendo, mas, podemos ir longe. Acredito no trabalho de cada um de nós e se as editoras, as livrarias e os leitores também acreditarem, podemos muito mais.

Você é o idealizador do Desafio Nacional Literário, um movimento cultural entre blogueiros que objetiva incentivar a leitura de obras brasileiras e valorizar os seus autores, sobretudo os que ainda são anônimos. Como está o andamento deste projeto?
O Blog do Desafio Nacional Literário é conduzido por um grupo de meninas que está descobrindo preciosidades literárias, sobretudo jovens autores que têm dificuldades na publicação e na divulgação das suas obras. É maravilhoso ver o trabalho delas em constante aperfeiçoamento. A partir do Desafio Nacional Literário, surgiu o Projeto Novas Letras, que foi concretizado com o apoio da Livraria Saraiva. Um grupo de sete jovens autores se reúne todos os meses, até o fim do ano, na Livraria. É uma oportunidade para exposição dos nossos livros e para troca de ideias entre autores e leitores, comprovando o potencial da literatura brasileira contemporânea.

Conte-nos sobre o seu novo trabalho “Três Céus”.

“Três Céus” é o meu próximo romance que conta três belas histórias de amor, mas, com um diferencial: todos os protagonistas são tripulantes. Um comissário, uma comissária e um comandante vivem suas inquietudes amorosas a 900km/h e a 12 mil metros de altitude. As histórias deles são paralelas, em uma infinidade de cenários que só a mobilidade da aviação permite, mas, caminham para um desfecho que os envolve e é de tirar o fôlego. Ainda não há data para o lançamento porque dependo do sucesso de “Todas as estrelas do céu”. Mas, como estamos quase chegando à sua 2ª edição, antes do esperado, acredito que, em breve, terei mais novidades sobre o “Três Céus”.

Obrigada pela entrevista, Ende! Desejamos-lhe muito sucesso na sua carreira literária!
Agradeço muito a você, Dani, pelo apoio, pelo interesse e pelo carinho! Que possamos, em breve, nos encontrar em algum evento de lançamento do livro “Todas as estrelas do céu”. Um beijo enorme!

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A palavra amor é um eufemismo para abrandar um pouco a verdade ferina da palavra cio.
Fisiologicamente, verdadeiramente, amor e cio vêm a ser uma coisa só.
(Júlio Ribeiro, 1845-1890)

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