O escafandro e a borboleta

domingo, 28 de novembro de 2010

Minha visão se turva e minhas ideias se embaralham. Assim mesmo sento ao volante da BMW, concentrando-me nos clarões alaranjados do painel. Manobro em marcha lenta e no feixe dos faróis mal distingo as curvas que já fiz milhares de vezes. Sinto o suor perolar-me a testa e quando cruzamos um carro vejo-o em dobro. No primeiro cruzamento encosto no meio-fio. Saio titubeante da BMW. Mal me seguro em pé. Desabo sobre o banco traseiro. Tenho uma ideia fixa: voltar à cidadezinha, onde também mora minha cunhada Diane, que é enfermeira. Semiconsciente, peço a Théophile que vá correndo buscá-la assim que chegarmos a frente da casa dela. Alguns segundos mais tarde, Diane está ali. Examina-me em menos de um minuto. Seu veredicto: “É preciso ir para a clínica. O mais depressa possível”.

Vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), aos 43 anos, o jornalista e bon vivant Jean-Dominique Bauby esteve em coma profundo durante vinte dias do mês de dezembro de 1995. Ao acordar, o corpo estava paralisado da cabeça aos pés. O único movimento era o piscar da pálpebra esquerda, por meio da qual passou a se comunicar com os outros: uma piscadela significava “sim”, duas, “não”.


Assim, Jean-Do [como era conhecido] ditou todo o conteúdo do livro O escafandro e a borboleta (Editora Martins Fontes; 142 páginas) aos seus interlocutores. O código de comunicação, desenvolvido pela foniatra, baseava-se nas letras do alfabeto de uso mais frequente na Língua Francesa, as quais eram soletradas até que as palavras fossem transcritas uma a uma, formando as frases.

E S A R I N T U L O M D P C F B V H G J Q Z Y X K W.

Cada letra é classificada em função de sua freqüência na língua francesa. [...] O sistema é bem rudimentar. Meu interlocutor desfia diante de mim o alfabeto versão E S A... Até que, com uma piscada, eu o detenha na letra que é preciso anotar. Aí recomeçamos a mesma manobra para as letras seguintes e, não havendo erro, depressa conseguimos uma palavra inteira, depois segmentos de frases mais ou menos inteligíveis.

Nessas sessões de soletração, os médicos notaram que a memória, o raciocínio e os sentidos de Jean-Do estavam preservados - ao contrário das funções motoras -, o que caracteriza a locked-in syndrome, uma patologia rara, cujo portador vive dentro de um escafandro, na metáfora de Jean-Do. Quanto à borboleta, refere-se ao estado de espírito diante das situações pós-coma: do sarcasmo ao desencanto.

Dez dias depois do lançamento do seu livro de memórias, em 09 de março de 1997, Jean-Dominique Bauby morre vítima de pneumonia, deixando dois filhos - Théophile e Céleste -, além de uma comovente lição de vida: mesmo diante das adversidades, é possível apaixonar-se pela vida - ainda que seja “por dentro”. Basta que o espírito seja invencível.

***

Além da leitura, que tal assistir também ao filme? O escafandro e a borboleta foi roteirizado para o cinema em 2007. Sob direção de Julian Schnabel, o ator Mathieu Amalric assume o papel de Jean-Dominique Bauby. Assista ao trailer, clicando aqui.




O Blog Romance Gracinha propôs a leitura de um livro que contenha uma lição de vida para o Desafio Literário 2010 do mês de outubro. Nesta gincana entre blogueiros, o objetivo é ler 12 livros, sendo um por mês e de gêneros literários diferentes. Em novembro, os participantes devem ler um livro de escritor português. Sei que estou atrasada, mas aguardem!

2 comentários:

  1. Oi, Dani,

    E que exemplo de vida, heim? Nós podemos encontrar um belo exemplo de vida, lá, na Univali. Um aluno do mestrado não tem pernas e somente um braço com movimentos restritos. Você entendeu bem: Mestrado! Agora só falta ele escrever um livro!!

    beijo

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  2. Mi, eu AMO histórias de superação.

    Penso que elas são uma motivação para gente aceitar aquele pneuzinho, aquele cabelo revoltado, aquela orelha de abano... e por aí vai...

    Um beijão!

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A palavra amor é um eufemismo para abrandar um pouco a verdade ferina da palavra cio.
Fisiologicamente, verdadeiramente, amor e cio vêm a ser uma coisa só.
(Júlio Ribeiro, 1845-1890)

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