A noite passada sonhei com a paz

domingo, 2 de janeiro de 2011

A noite passada sonhei que a paz tinha sido decretada, que eu tinha voltado e visto todo mundo. Ah, o sonho da paz e da independência arde no coração de trinta milhões de pessoas há tanto tempo. [...] Tantas pessoas se ofereceram para sacrificar suas vidas por duas palavras: independência e liberdade. Eu também sacrifiquei minha vida por esta conquista grandiosa.

O diário de Dang Thuy Tram (Editora Rocco; 267 páginas) foi publicado, em 2005, durante as comemorações do trigésimo aniversário da libertação do Vietnã do Sul do domínio ocidental. Causou grande comoção nacional, tornando a autobiografada uma heroína popular, digna de um memorial nas montanhas de Duc Pho [local onde foi morta].

Na Guerra do Vietnã (1959-1975), a jovem médica-voluntária, de 26 anos, registrou vividamente os acontecimentos na província de Quang Ngai e, principalmente, nos hospitais de campanha [que eram itinerantes para despistar os inimigos norte-americanos], onde ela atendia aos combatentes feridos.

Sensível às agruras da guerra, suas lágrimas caíam ternamente sobre os pacientes enquanto suas mãos tentavam curar-lhes os ferimentos em condições tão precárias [cirurgias eram realizadas sem eletricidade e sem anestésico]. Nos casos de morte, Thuy ficava desolada, demonstrando toda sua vulnerabilidade sentimental.

Nas horas “livres” e de trégua, ela ensinava técnicas básicas de enfermagem aos jovens. Os feridos não paravam de chegar do front e, por vezes, Thuy passou noites em claro para cuidar do sofrimento alheio, ignorando as suas próprias dores - internas [pelo amor impossível por M.] e externas [pela fome e cansaço extremos].

Em A noite passada sonhei com a paz, destacam-se ainda os ideais políticos da médica que almejava pertencer ao Partido Comunista, filiando-se como vietcongue. Considerada uma burguesa [era filha primogênita de pai médico e mãe farmacêutica e teve educação francesa], ela não foi aceita facilmente pelo Partido. O convite tardou, mas Thuy honrou sua filiação.

O diário foi escrito em situações inóspitas: trincheiras, abrigos subterrâneos e enfermarias. Por isso, muitas partes dele foram extraviadas devido aos deslocamentos fugidios. O que sobrou engloba apenas o período 1968-1970, embora Thuy tenha permanecido nas áreas de conflito por quatro anos, relegando o conforto do lar e o amor de sua família em Hanói.

Quando Dang Thuy Tram foi morta em 20 de junho 1970, numa emboscada nas montanhas de Duc Pho, o soldado norte-americano Fred Whitehurst, instruído a queimar todos os documentos apreendidos, salvou o seu diário a pedido do intérprete vietnamita Nguyen Trung Hieu que, na ocasião, havia lhe dito: “Não queime esse aí, Fred. Ele já está pegando fogo”.

***

Minha opinião: “Por contrariar os convencionalismos da época, a história de Thuy é comovente e até romântica. Ela foi uma mulher à frente do seu tempo. Corajosa e idealista, Thuy preferiu viver longe da família por amor ao seu país e por devoção aos seus ideais. Mesmo vivendo em situações extremas, ela conseguiu transmitir suas mensagens pacificadoras em tom poético. Por isso, a leitura deste diário é tão agradável, ainda que, devido à grande quantidade de notas de rodapé, tenha sido interrompida continuamente”.


O Blog Garota It propôs a leitura de, no mínimo, seis livros para o Desafio de Férias 2010-11 durante os meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Confira a minha lista de leituras!

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A palavra amor é um eufemismo para abrandar um pouco a verdade ferina da palavra cio.
Fisiologicamente, verdadeiramente, amor e cio vêm a ser uma coisa só.
(Júlio Ribeiro, 1845-1890)

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