Caminhos cruzados

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Caminhos cruzados (Editora Globo; 299 páginas) é o segundo romance do escritor Érico Veríssimo, publicado em 1935 no período do Levante Comunista contra o Governo de Getúlio Vargas. Foi considerada uma obra imoral e subversiva, por retratar o cotidiano de pessoas ricas e pobres, cujas preocupações são tão desiguais em função da vida que levam - por motivos crônicos que ainda hoje perduram pela desigualdade de oportunidades de educação, emprego e renda.

Passando-se em cinco dias da semana, de sábado a quarta-feira, o enredo é permeado por histórias individuais que se cruzam de algum modo, revelando fielmente os binômios antagônicos: pobreza e riqueza; alegria e tristeza; vida e morte; amor e traição; supérfluo e necessário; dependência e independência. Deste modo, não há personagens secundários. Todos são fundamentais para o desenrolar dos fatos cotidianos.

No núcleo burguês, destacam-se:

A família Leiria. Teotônio é um homem de negócios que almeja seguir a carreira política. Para agradar pessoas influentes deste meio, ele tem o costume de demitir funcionários, sem razão, para dar lugar aos “protegidos políticos”, além de outros subterfúgios. Sua esposa Dodó faz da filantropia uma forma de aparecer nas colunas sociais dos jornais. Os dois têm uma filha, Vera, que é cortejada pelo Dr. Armênio, um bom partido.

A família Madeira. Honorato dedica-se apenas ao seu armazém de secos e molhados. Ele é casado com a esnobe Virgínia, uma mulher preconceituosa que agride suas empregadas negras. Confiou à “tia” Angélica a educação do filho Noel. Sem o envolvimento afetivo do pai e da mãe na sua educação, Noel tornou-se uma pessoa extremamente insegura e dependente da amiga Fernanda - até para atravessar a rua!

A família Pedrosa. Zé Maria teve sorte grande: ganhou na loteria e pôde esbanjar. Mas a esposa Maria Luísa não gostou da vida farta; preferia voltar para Jacarecanga e morar na casa antiga, simples e aconchegante, ao contrário da fria mansão em que a família mora em Porto Alegre. Os filhos Chinita e Manoel, por outro lado, gozam a vida “de cinema”, mas o dinheiro os corrompeu; de filhos bem educados e obedientes, tornaram-se pessoas desrespeitosas.

No núcleo proletário, destacam-se:

A família de João Benévolo. Depois que foi demitido por Teotônio Leiria, João Benévolo não consegue outro emprego, por falta de iniciativa. Sua esposa Laurentina o sustenta - e ao filho Napoleão - com a mísera renda de suas costuras. Diariamente o casal recebe a visita de Ponciano, o namorado de infância de Laurentina, que lhe oferece ajuda financeira. Com o orgulho ferido, João Benévolo se imagina um dos três mosqueteiros enfrentando as agruras da vida.

A família de Dona Eudóxia. Dona Eudóxia é uma dessas idosas que, sentada numa cadeira de balanço, perde tempo cuidando da vida alheia pela janela. Fernanda, sua filha, trabalha para Teotônio Leiria e, com o salário que recebe, sustenta a mãe e ao irmão Pedrinho. Ela é apaixonada por Noel, seu amigo desde a infância, e Pedrinho é apaixonado por Cacilda, uma prostituta, que é amante de Teotônio Leiria.

A família de Maximiliano. Maximiliano é um homem tuberculoso e moribundo que vive sob os cuidados da esposa. Sem dinheiro, a doença não pôde ser tratada adequadamente. Receberiam ajuda de Dodó Leiria se esta não se esquecesse de entregar o dinheiro à família por conta de sua festa de aniversário, na qual receberia uma homenagem por seus préstimos sociais. Ele morreu e deixou a esposa com dois filhos pequenos.

Prof. Clarimundo. Um homem solitário e observador. Almeja escrever um livro, cujo personagem é “um ser dotado da faculdade de raciocínio postado em Sírio [uma das estrelas do Sistema Solar] e de lá olhando a Terra com um telescópio poderoso. Que visões terá ele do nosso planeta?”. Certamente, ele observará que “a vida é uma sucessão de acontecimentos monótonos, repetidos e sem imprevisto. Por isto alguns homens de imaginação foram obrigados a inventar o romance”.

***

Minha opinião: “Este romance urbano, de leitura agradabilíssima, me proporcionou uma reflexão sobre as atitudes e o comportamento dos seres humanos. Foi interessante notar que os perfis psicológicos - muito bem descritos pelo autor - ainda existem, revelando que aspectos (i)morais e (anti)éticos perduram. Deste modo, percebe-se que a sociedade brasileira não evoluiu em termos de atitudes e comportamento: pessoas de má índole dividem espaço com as de boa índole. E, diante de tantas injustiças, os bons pagam pelos maus”.

Um comentário:

  1. Muito fofo seu blog :)
    Beijos

    http://chabiscoitoseumlivro.blogspot.com

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A palavra amor é um eufemismo para abrandar um pouco a verdade ferina da palavra cio.
Fisiologicamente, verdadeiramente, amor e cio vêm a ser uma coisa só.
(Júlio Ribeiro, 1845-1890)

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